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O futuro é feminino: “a ciência precisa de mulheres!”

* Renan Dantas

* Fotos: Louise de Villio

Nos últimos anos, o número de mulheres exercendo atividades acadêmicas aumentou. Em 1995, correspondiam a 34% do total de pesquisadores no Brasil. Hoje, já representam 50%. Apesar da elevação, as mulheres não conseguem atingir cargos mais elevados, como diretorias de instituições e centros de pesquisa. A Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, só possui 10% de mulheres em seus quadros.

Essa distorção é evidenciada em prêmios, como o L’oréal Paris para mulheres na ciência. No regulamento da premiação, lê-se: “percebe-se desequilíbrio de gêneros entre os pesquisadores e a Ciência precisa de mulheres!”. Ou seja, sintoma de uma doença silenciosa: as mulheres não concorrem de igual para igual com os homens. Do contrário, não haveria a necessidade de prêmios. Como as pesquisadoras veem essa situação?

Conversamos com a doutora Denise Moraes da Fonseca, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e ganhadora do Prêmio L’oréal Paris. Na entrevista, ela expressa o seu ponto de vista a respeito da posição da mulher na ciência e fala um pouco da sua trajetória.

Denise Moraes da Fonseca é formada em Ciências Biológicas com mestrado e doutorado em Imunologia Básica e Aplicada. Em 2016, ganhou o prêmio L’Oréal Paris. Com um ar solicito, ela nos recebe. Pausa para esconder as guloseimas. Em laboratórios, é proibido comer ou beber. De cara, nos deparamos com as vidrarias e equipamentos científicos que mais me lembravam o desenho Pinky e o Cérebro (1995), que assistia em minha infância.

Apesar da descontração, o assunto é sério. Qual a posição da mulher na ciência? Para além dessa questão, procurei explorar a trajetória de Denise. Quais foram as maiores dificuldades? Grata surpresa. Denise estudou em escolas públicas. E isso foi fundamental para a sua formação. É o que relata: “Eu fui de certa forma privilegiada, por ter estudado em uma escola pública muito boa”. Época em que tais escolas mantinham alto nível de qualidade. “A gente tinha feira de ciências na escola, o laboratório que funcionava. Um estímulo desde de cedo”, relembra.

E hoje? A educação de base é um dos maiores entraves no Brasil. Se Denise recebesse a mesma formação oferecida atualmente, teria mais uma barreira a enfrentar. O que era para ser a solução, vira o problema.

“É um mundo muito masculino quando você começa a progredir”

Tratar a posição da mulher na ciência exige certo cuidado. Afinal, ela possui áreas distintas. Nas ditas ciências exatas, o número de mulheres é mais baixo.  “A gente quase não vê”, relata Denise. Quadro distinto das ciências biológicas, onde o número é mais equânime: “há uma quantidade equivalente de mulheres em relação aos homens”, acrescenta.

Denise destaca um ponto importante: o preconceito é velado.  “Eu não acho que ser mulher na ciência é ser atacada”, relata. Não há xingamentos diretos ou atitudes declaradas. O preconceito se torna algo mais estrutural do que explícito e essa diferença é percebida em cargos mais elevados. “É um mundo muito masculino quando você começa a progredir”, conclui.

Ganhadora do prêmio L’Oréal Paris para mulheres na ciência, Denise diz que a premiação a fez compreender a importância de militar pela a igualdade das mulheres na área. “Eu acho que o prêmio te dá um destaque, mostra que a pesquisa está sendo feita pelas as mulheres”. O prêmio conta com a parceria da UNESCO Brasil e a Academia Brasileira de Ciências. A cada ano, sete jovens pesquisadoras de diversas áreas de atuação são contempladas com uma bolsa-auxílio de 50 mil reais.

Ao aproximar a nossa lupa, percebe-se outra distorção: à medida que subimos a escada, as mulheres desaparecem. Em graduações, pós-graduações e laboratórios o número de mulheres é alto. Quando chegamos a cargos como chefias de departamentos, diretorias, reitorias a quantidade cai. “É curioso porque é uma carreira que quando está no começo vê que a maioria é de mulheres. Você vai progredindo e começa a perceber que essa proporção é desigual”, pontua.

E qual é a maior inspiração da Doutora Denise? Quando fiz essa pergunta, imaginava que a resposta seria Marie Curie, ganhadora de dois Prêmios Nobel, um em Química e outro em Física. Talvez o meu preconceito ou a minha ignorância não deixasse enxergar a existência de outras pesquisadoras, como a arqueóloga brasileira Niède Guindon.

Guindon foi fundamental para estabelecer o parque arqueológico mais importante do Brasil: o Parque da Serra da Capivara, em São Raimundo Donato. Ela também é responsável pelos estudos sobre a chegada do homem na América. Fósseis de mais de 58 mil anos foram descobertos nessa região, abalando a teoria de que o homem teria chegado à América pelo Estreito de Bering, localizando entre a Rússia e o Alasca. “É uma pessoa muito importante e pouco mencionada. A luta dela é bastante inspiradora”, justifica Denise.

São lutas como essas que merecem ser destacadas. Apesar das mudanças, há muitos obstáculos. Essa não é só a luta das mulheres e sim de todo o conjunto da sociedade.

 

*Renan Dantas é estudante do quinto semestre de Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Esta matéria foi elaborada nas aulas de Jornalismo Digital e Narrativas Transmidiáticas e cedida gentilmente ao Parágrafo C!

Um comentário em “O futuro é feminino: “a ciência precisa de mulheres!”

  1. Transitar por esse caminho em um país que corta verba para ciência, já é algo difícil. Ser mulher e desbravar em cargos que em sua maioria é ocupada por homens, é realmente digno de respeito.
    Todo sucesso a Doutora Denise!!!
    E parabéns pela matéria!
    Recomendo aos interessados pelo tema, o vídeo “Sobre a Expansão do Nada” do canal Jout Jout Prazer. Nele é abordado sobre mulheres na ciência, a premiação L’Oréal Paris, e tem uma entrevista com uma ganhadora brasileira deste prêmio.
    Vale muito a pena!
    Link: https://youtu.be/b0med6S-s2Q

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